“I'm so close to what I've dreamed of.
But it hurts so.
Yeah it hurts so...”
But it hurts so.
Yeah it hurts so...”
Tento me concentrar no que estou fazendo. Entretanto, tudo o que consigo ouvir no momento são os restos da última noite. Fora isso, estou literalmente surda para o mundo. Lá estavam as lágrimas, enterradas por tanto tempo em um solo infértil e este é o resultado: a confissão que me foi escondida por mim mesma em longos quatro anos.
Parecia um muro, sim, incrivelmente é esta a palavra e ela se encaixa tão bem. Estava materializado na minha frente como uma metáfora de toda a dificuldade que enfrentava. Quanto poderia imaginar encontrar a palavra fora dos meus próprios pensamentos, que a buscavam incessantemente. Ela me foi oferecida por você, como num ato inconsciente de altruísmo: a definição que tanto procurei.
Era uma multidão impenetrável, uma parede firme, que não conhecia a instabilidade daquelas que construi ao meu redor para minha própria proteção. Diferenciava-se também em sua transparência contrastando com a cegueira a qual as minhas me limitavam. Transparência que me permitia ver-te, mas me impedia de me aproximar. Senti-me impotente, essa é a verdade. Eram alguns metros, não passavam de dez. Mas havia a fila de corpos como pedras, cada um representando um obstáculo a mais. Meus pés estavam exaustos e colados ao chão.
Existem os que, como eu, nascem do lado escuro do muro e os que, como você, nascem do outro lado e têm a legitimidade de uma luz natural.
“Estou escrevendo o que não consigo ver. Quero acordar em um sonho. Eles me dizem que é lindo. Eu acredito neles, mas será que um dia vou conhecer o mundo por trás do meu muro? O sol vai brilhar como nunca antes. Um dia eu vou estar preparado para partir. E ver o mundo por trás do meu muro. Trens estão viajando no céu por entre fragmentos do tempo. Eles estão me levando a partes da minha mente as quais ninguém consegue encontrar. Estou pronto para cair. Estou pronto para rastejar de joelhos, para conhecer tudo. Estou pronto para curar. Estou pronto para sentir. Leve-me para o outro lado.”
(World Behind My Wall – Tokio Hotel)
E eu chorei. E eu gritei seu nome, mas o barulho engoliu a minha voz, que se uniu a ele. Nós gritamos, como irmãos com um sonho em comum. E o conjunto de todas essas vozes era uma mão invisível que por fim acabou te tocando. Nossa única forma de fazê-lo, no final das contas. Era a transfiguração de um sentimento em um som estridente e profundo, não proveniente do ar dos pulmões, mas de tudo aquilo que existia no coração. Foi superada a impotência de uma única voz, baixa e rouca, e uniram-se as vozes de todos em uma só, cantando juntas, mas dessa vez forte o suficiente para serem ouvidas. Foram superadas barreiras idiomáticas e continentais, vocês atravessaram o oceano, e nós acabamos nos comunicando naquela língua universal e sincera. Seu encanto sobrenatural e seu carisma estavam finalmente lá para confirmar tudo o que eu já sabia. Era tão passional. Seus olhos brilharam, nós vimos. Sua voz era infinita. E não havia espaço naquele local para tantos agradecimentos. Apenas em nossos corações, que os sugavam com desespero e os guardavam como uma lembrança única de um momento que passou como uma chuva de verão, rápido e intenso. Tão desejada chuva após um longo período de seca.
“Correndo pela chuva além do mundo para o fim dos tempos onde a chuva não nos machucará. Lutando contra a tempestade dentro da tristeza. E quando eu me perco penso em você. Nós fugiremos juntos para um lugar novo, através da chuva. Apenas eu e você. Estaremos lá em breve.”
(Monsoon – Tokio Hotel)
Então, de repente, havia a escuridão, havia o silêncio e havia a expectativa. Mas você partiu deixando para trás lágrimas (e sorrisos e sonhos realizados e corações batendo).
E, infelizmente, havia deixado também aquela infindável sensação de abandono.
Senti o peso de uma distância absurda que voltaria a existir em poucas horas.
Éramos como cinco mil órfãos.
Saindo de lá, sentei no chão para processar o que tinha vivido. Estava no meio de um tumulto de pessoas saindo por uma mesma porta e paradoxalmente me sentia sozinha.
E eu via São Paulo, aquela gigantesca cidade fantasma e inexpressiva que não chorava e não sorria, não expulsava e nem acolhia ninguém. Apenas suas ruas, becos e avenidas serviam de berços inseguros para muitos. E sim, desejei por um momento fazer parte deles e ficar por lá mesmo, vagando com o pensamento em branco até me encontrar dentro de mim mesma. Porém tinha que voltar para casa.
A estrada era vasta, a viagem era longa. Meu coração não quis vir comigo. Ele ficou com você.
“Você é o sol e eu sou a lua. Na sua sombra eu posso brilhar”
(In Your Shadow – Tokio Hotel)
“Gasolina e sangue é tudo que eu tenho. Em você eu confio. O último retorno está passando.
As rodas correm livres debaixo de mim. É você que eu sinto. Um milhão de faíscas estão caindo. Eu viro o carro: me dê um beijo de adeus, dentro da luz. Como um motorista fantasma eu estou morrendo esta noite. Tão escuro e frio, eu dirijo sozinho como um motorista fantasma. Não posso fazer isso sozinho. Promessas. Eu arranhei tão fundo no seu assento vazio. O céu está virando de cabeça para baixo. Eu viro o carro: eu não sei o seu nome, mas eu ainda acredito. Agora é o momento para eu e você. Tão escuro e frio, eu dirijo sozinho como um motorista fantasma. Não posso fazer isso sozinho. Agora eu estou aqui sem mais medos. Anjo, não chore, eu te encontrarei do outro lado. Eu estou aqui com você. Eu estou aqui. Deixe-me sozinho: fantasmas sempre morrem sozinhos.”
(Phantomrider - Tokio Hotel)
Meu muro se desfez dando espaço para outros que seriam construídos logo após, não fisicamente, mas de todas as outras formas. Mas a pergunta que fica é aquela mesma: “Eles me dizem que é lindo. Eu acredito neles, mas eu irei conhecer algum dia o mundo por trás do meu muro?”.
Eis a realidade: não se vive da mesma forma em cárcere após ter sentido o calor de um raio de sol. Vive-se com aquela vontade de que o teto caia. Seja pela morte ou pela luz do sol; destinos antagônicos: dois únicos destinos possíveis.
___________________________________________________________
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Ausência - Vinicius de Moraes)