quarta-feira, 20 de abril de 2011

Memórias repetidas

"Eu nunca tive a intensão de te causar problemas
Não, nunca quis te machucar" Trouble - Coldplay
Aqui estou eu de novo. São umas duas horas da manhã. De novo. Mais uma daquelas madrugadas peculiares que impedem o sono de fluir. E eu sinto como se precisasse escrever para conseguir dormir. Mas minha cabeça, até então, estava vazia da mesma forma que a maioria das páginas dessa  agenda antiga. E como essas eram as únicas páginas brancas disponíveis nesse quarto, tive que fazer uso das mesmas. Como disse, a maioria das páginas estão em branco - nunca consegui levar uma agenda para frente - porém não são todas. A agenda acabou virando um lugar no qual eu anotava memórias. Deparei-me com uma que dizia:

15/02/2009
"Eu disse para ele que o tempo sempre conserta as coisas. Então ele perguntou: 'conserta?'. Quando eu pensei estar pronta para dizer 'sim', parei para pensar por um segundo e a única coisa que consegui dizer foi: 'eu não sei'. Bem… o tempo tem consertado muitas coisas para mim. Mas e as outras coisas, quando serão consertadas? Serão consertadas?"

O problema é que, considerando a data e tantos outros aspectos, tive grande dificuldade de identificar com quem tive esse diálogo. Pensei por um bom tempo e troquei várias vezes as peças do quebra cabeça: cenários, momentos e pessoas. E não resolveu a questão, pois todas pareciam se encaixar perfeitamente. A mente é capaz de induzir memórias ou seria possível que diálogos semelhantes pudessem ter ocorrido várias vezes na minha vida? Eu creio que ocorreram. E essa era a pior parte, porque várias eram as pessoas para as quais eu poderia ter utilizado a velho clichê do tempo. Que eu precisaria ter usado o tal clichê. Ou deveria ter ficado quieta? O silêncio pode ser pior, considerando a situação, mas as coisas já chegaram a tal nível que eu não saberia distinguir e analisar muito bem as duas opções.
Não há como negar, de qualquer forma, que o tempo tem sido um dos meus melhores amigos. Entretanto ele não parece ser tão amistoso com outras pessoas que passaram ou ainda estão na minha vida. Como é possível que depois de tantos anos não fiquem exaustas de estarem trancadas no mesmo quarto escuro, apertando o mesmo botão quebrado. A paixão aliena, de fato. Também não sei te dizer até que ponto é positiva ou negativa. Tantas são as variáveis envolvidas.
Eu errei. Várias vezes e talvez de novo. E de novo. Precisei jurar que o tempo ajudaria, de uma forma que eu não poderia fazê-lo. Não sei se disse por inocência ou falta do que dizer. Não sei se disse mesmo ou se deveria tê-lo feito. A questão é que não é o tempo o sujeito da ação. Somos nós mesmos. Isso só ficou claro para mim agora. Tenho sido sujeita da ação e dado crédito ao tempo. Tudo isso porque eu escolhi "esquecer". Foi rápido e eficiente. Ninguém fez isso por mim. E várias pessoas, infelizmente, não tem feito isso por si mesmas. Talvez a culpa seja minha. Talvez eu tenha indicado o caminho errado a seguir, mesmo involuntariamente, quando procuraram-me, desesperados por indicações. Eu fui legal demais, com medo de magoar. Eu abracei forte demais e demonstrei afeto demais, quando, na realidade, o essencial não estava mais lá. Tive demasiado carinho, mas não tive amor, porque não o tinha a muito tempo. E não posso doar o que não tenho, por mais que tivesse vontade de fazê-lo. E necessidade de fazê-lo. E a necessidade faz com que ajamos como idiotas e que não percebamos a situação que acabamos criando. Joguei para o tempo um dever que era meu.
Resolvi ler outras páginas da agenda. Obtive então a confirmação de tudo o que escrevi acima. Com apenas três dias de diferença, estava escrito:

18/02/2009
" Ele me perguntou se realmente deveria me esquecer. Eu sabia que tinha chegado a hora. Tudo dependeria da minha resposta. Então olhei para o poste, olhei para a poça d'água e continuei assistindo as gotas de chuva caírem por dois ou três segundos, não sei muito bem. Debaixo do guarda-chuva, o tempo passou rápido. Eu sabia que precisava dar uma resposta. Tudo estava indo bem aquela noite até esse momento. Eu hesitei entre um 'não' e um 'sim'. E o que eu disse? ' Talvez'. Era tudo o que eu podia dizer, depois de tudo. 'Mas não se esqueça das memórias', eu disse. Boa noite, e foi só isso. Acho que deixei algumas lágrimas caírem, mas, por causa do guarda-chuva, a chuva não foi capaz de camuflá-las."

Eu penso, quantos 'talvez' eu acabei dizendo, dando apoio a esperanças que não deveriam continuar existindo. Ser legal nem sempre é a melhor forma de agir. Ser legal deveria ser proibido em casos como esse.

0 pensamentos:

Postar um comentário

Digam o que pensam :)