Meu coração está divido entre o que é certo e o que ele pensa que é certo, e tantas outras subdivisões daquilo que é a verdade dele. Não que corações pensem, eles apenas nos mandam agir, pautados por qualquer coisa que não seja a racionalidade. Eu mesma que o possuo não sei distinguir entre as partes aquela que seria a correta. Costumo tomar por certa a que ele me diz que é, e isso é mutável ao longo do tempo.
As divisões do meu coração são tão bem demarcadas que eu poderia medi-las sem muito esforço. Eu poderia descrevê-las em cada mínimo detalhe. E elas se tornaram tão diferenciadas uma das outras que é uma contradição fazerem parte do mesmo corpo. Guardam sentimentos tão desiguais e simultaneamente legítimos, que por isso entram em conflito entre si. Criam uma guerra dentro de mim, na qual em momentos distintos há vencedores distintos. Muitos são aqueles que acreditam que sentimentos desse tipo poderiam apenas existir no singular. Não exatamente. Talvez aquele que tenha esse poder de existir no singular seja bem mais forte que todos esses fragmentos que conheço.
Há no meu coração tantos buracos, muitos mesmo, acumulados no longo prazo. Não há poesia que possa tapá-los. Não há nada que eu possa fazer sozinha no meu quarto para reverter essa situação, por máximo que eu tente ou fique acordada a noite inteira procurando por palavras que preencham o vazio, eu não as encontrarei porque elas não existem. Porque palavras não preenchem nada, principalmente sendo palavras minhas. Elas por vezes dão essa falsa impressão, que não costuma durar muito. É mais fácil que palavras venham a ser a causa dos buracos e não o remédio para tal.
O meu coração tem agido através de mim, e a parte mais estranha é que ele o tem feito com o meu consentimento. Eu o reprimi por muito tempo e não mais consigo fazê-lo. E não acho que conseguirei fazê-lo tão cedo.