sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Exílio

   Então prometa que você estará aqui na próxima vida.
   Se não puder, prometa que passará por aqui, nem que seja em uma insignificante manhã de segunda-feira. E eu encontrarei seus olhos e perceberei que há algo a mais que eu desconheço, há algo de inexplicável nos olhos de um estranho, numa rua comum, numa insignificante manhã de segunda-feira. E então eu voltarei ao meu café, com a distante impressão de que algo deu terrivelmente errado. De novo. 
   Mas prometa que o vazio que nos tomou por dentro será levado embora, nem que seja de uma maneira bruta ou artificial. Apenas, por favor, não preencha os campos da minha nova existência com o castigo da sua antiga e inacabável ausência.
    Porque eu sei, sim, eu sei que mesmo a quilômetros de distância fitamos o mesmo azul pálido lá em cima e respiramos juntos lamentando o que no cerca aqui em baixo. Sim, você vai ser sempre uma constante. Para sempre uma arma apontada para a minha sanidade… Sempre lá… Do outro lado do mundo.
    Então, se você, por acaso, nesse lugar indiferente que você vive, se pegar sendo sóbrio além do limite, se um dia o chão parecer instável e o cinza sobre sua cabeça parecer miseravelmente expressivo, você finalmente vai perceber que algo deu terrivelmente errado. De novo. E que, provavelmente não nos será dada uma chance…Não nessa vida ou na próxima.
   Mas, independente da situação, você sempre poderá fechar os olhos  e visualizar esse "eu" sem face e poderá fingir que a vida é mais leve e que essa espera é mais segura e que essa tímida brisa denominada liberdade te guia timidamente para os meus braços.
   E, acima de tudo, eu ainda acredito que no fim nos encontraremos do outro lado dessa bagunça que eles inocentemente chamam de realidade.