Sempre teve os pés cravados no chão, como se fizesse parte dele. E sempre olhou para o céu apenas de baixo. Entretanto, nunca acreditou que as nuvens fossem o limite. Queria sobrevoá-las, sentir o ar frio preenchendo seus pulmões. Queria encher os olhos com o azul, desde o mais brilhante até o mais sóbrio. Enchê-los com o branco macio e desbotado. Queria parar o tempo e alongar a sua estadia sob a aquarela celestial. Queria trocar o real por esta utopia, como um velho comerciante troca sua habitual mercadoria por ouro reluzente. Porém, havia dias em que se sentia como se não pudesse levantar-se e encarar o horizonte. Sentia-se envergonhada diante de sua majestade. Sentia-se tentada a sua oferta de liberdade. Mas mantinha os olhos fechados. Parecia-lhe muito doloroso desejar algo que estava tão distante.
E havia dias em que, corajosa e maravilhada, assistia o nascimento da mais pura e rósea aurora, que através da manhã transformava-se em ciano, e o ciano, mais tarde, em escarlate, e as cores revezavam, cada uma cumprindo seu turno, conforme o sol seguia o caminho diário até o seu leito atrás das montanhas. E então havia escuridão. Mas as estrelas estavam lá e sorriam, simpáticas, absortas em sua tarefa de brilhar e causar nos seres mortais a mais profunda adoração, até que o sol retornasse do seu sono na manhã seguinte.
A vida passava, o céu mudava. E ela vislumbrava tudo através da gaiola. Desejava escapar dela e ver além do que lhe permitiam as barras de ferro. Mas tinha medo que depois da grade suas asas durassem pouco. Talvez perdessem as penas, talvez não permitissem que fosse tão alto. Na verdade, nunca nem sequer soube se tinha asas, ou se algum dia abandonaria de fato a gaiola. Talvez todo o sonho de tocar o céu fosse apenas ilusão.
Mas enquanto vivesse sabia que havia outra forma de ir lá em cima. Se não estivesse lá pessoalmente, poderia ir através dos sonhos. Ah, os sonhos! Os únicos capazes de nos fazer viver o que não podemos, experimentar o gosto doce do impossível. Uma experiência, talvez não tão real ou tão doce, e, oh, era tão frágil, que com o barulho do cantar dos pássaros poderia desfazer-se em um segundo. Mas ainda assim era valiosa.
E ela imaginava acordar em um sonho, as grades derreteriam assim como a neve após um longo e gélido inverno. Suas asas se abririam tão absolutas e incontestáveis que até os próprios anjos as desejariam para si. E então, com um impulso, se libertaria das correntes que a prendiam no chão e voaria alto. Voaria como uma borboleta acima de um infindável campo de flores. Flutuaria. Correria no ar. Voaria para longe. Voaria para nunca mais voltar.
[Foto e Texto: minha autoria]
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Hoje é aniversário de um dos maiores compositores e músicos clássicos de todos os tempos: o italiano Antonio Lucio Vivaldi *-*. Não poderia deixar de citar isto aqui, pois tenho adoração por suas músicas. Foi um dos maiores representantes da música barroca, juntamente com o alemão Johann Sebastian Bach. Seus concertos mais conhecidos são Le quattro stagioni (As quatro estações). Vale a pena ouvir, principalmente o "Inverno" que é minha preferida e mesmo que você não goste de música clássica, talvez esta seja a chance de começar a gostar :). Ele nasceu em Veneza em 1678 e morreu em Viena em 1741.